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sexta, 03 setembro 2010
 
 
Aprovado - Pedro Israel Novaes de Almeida PDF Imprimir E-mail
Escrito por Pedro Novaes   
sexta, 26 dezembro 2008
 ImageAcabo de ler, na internet, que meu filho foi aprovado no exame vestibular, e aguardo clarear o dia para dar-lhe a boa nova.

      A primeira vítima é o artigo da semana, que com toda a certeza acabou abortado.

      Talvez escrevesse a respeito da crise mundial, enumerando suas conseqüências e xingando os capitais e governos irresponsáveis, de todo o mundo. A crise tem origem definida, explicada pelos economistas, mas seus efeitos são melhor explicados pelos psiquiatras, pois vão além do necessário. Mas é só mais uma crisezinha, incapaz de alterar a lista de aprovados no vestibular.

      A anunciada e milionária obra pública, túnel que unirá o Palácio do Planalto ao Senado, parece perdulária e desnecessária, e deixa a impressão de relacionamentos infiéis. Agora, que todos os setores da vida humana estão devida e satisfatoriamente atendidos, chegou a hora de gastar as fartas disponibilidades do erário, no túnel que unirá os dois poderes. A notícia seria irritante, não fosse o fato do vestibular.

      Poderia, na semana, escrever a respeito da influência do dinheiro na beleza humana. Os leitores, com certeza, sugeririam a internação do autor, sem o prévio cuidado de comparar as feições humanas da rodoviária com as do aeroporto. Ora, feios e feias, ricos, sempre acabam casando com pessoas mais bonitas, embelezando as proles. Mas o bonito mesmo foi o resultado do vestibular.

      Mais uma vez, o Brasil ficou em lugar de destaque, no ranquing mundial de corrupção perceptível. Empresários, pesquisados em sigilo, revelaram que ainda há muita malandragem e safadeza, por aí. São contra a corrupção, sabem que ela existe, mas continuam alimentando-a. Talvez acabem entendendo que o pretexto da sobrevivência no mercado corrompido é imoral. Ainda bem que, no vestibular, não houve nenhuma vaga comprada.

      Todos temos, ocultos ou declarados, inimigos. Há inimigos que atuam afrontosamente, buscando prejudicar os desafetos, e há inimigos que nada fazem, limitando-se a saborear, em silêncio, as desgraças alheias. O processo de construção de inimigos é estranho, bastando uma frase, um ganho qualquer ou fazer, ainda que sem intenção, sombra à atuação alheia. Tomara que os filhos de meus inimigos também tenham sido aprovados no vestibular. Em pior classificação, é claro.

      É irritante a inscrição nos exames vestibulares. Os formulários da maioria das faculdades parecem cadastros bovinos. Os vestibulandos devem informar a cor e raça. Devem ainda informar se os pais são multimilionários, assim presumidos quando os filhos não cursaram escolas públicas. Se a família passou o tempo todo sorteando o bife, no almoço, para propiciar um melhor ambiente de estudo ao filho, é um detalhe que pouco importa.

      Vou terminando o artigo, antes que caia na tentação de contar, a todos, que meu filho foi aprovado no exame vestibular.

      

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      O autor é engenheiro agrônomo e advogado, aposentado.

 
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