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quinta, 09 setembro 2010
 
 
Os donos do mundo - Aracy P. S. Balbani PDF Imprimir E-mail
Escrito por Aracy P. S. Balbani   
quarta, 14 janeiro 2009
Não sou dono do mundo, mas sou filho do dono.
Frase de parachoque de caminhão.
     Uma vez perguntei à proprietária de um restaurante judaico em São Paulo como era seu relacionamento com o vizinho da frente, justamente o dono de um restaurante árabe. Ela respondeu que conviviam maravilhosamente bem, até porque... eram parentes. Esse e outros tantos exemplos de convivência harmoniosa entre árabes e judeus no Brasil, em meio a uma pluralidade étnica e religiosa sem igual, reforçam que a diplomacia brasileira tem muito a contribuir para as conversações de paz no Oriente Médio e em outras áreas de conflito.

    Há quem afirme que "se o problema está em outro lugar do mundo, não temos nada com isso". Esse pensamento reflete um profundo desconhecimento da História. Pois foi lá no Oriente Médio que floresceu, por exemplo, a cultura persa, com seus poetas, artistas e médicos que nos legaram tantos saberes. A África foi o berço da espécie humana; sem ela simplesmente não existiríamos.

Foi na Ásia Central, onde estão a Índia e o Paquistão, que se desenvolveram algumas das primeiras e mais importantes civilizações. Mas pior do que ignorar a História é não ter a noção de que somos todos humanos, portanto merecedores de paz duradoura e dignidade enquanto habitantes do mesmo planeta.

    Muita coisa está fora de ordem no mundo. O Oriente Médio tem sido palco de um banho de sangue motivado, entre outras coisas, pela ambição desmedida sobre o petróleo que move os carrões e os negócios dos magnatas ocidentais. Em pleno século XXI assistimos à construção, por Israel, de uma nova muralha, destinada a separar os palestinos das poucas áreas disponíveis para cultivo agrícola em meio a uma região inóspita.

    China, Índia e Brasil somam 1/3 da população mundial, porém comente a primeira tem lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU. Nós, os outros "emergentes", somos chamados à mesa de negociações somente quando a economia dos países ricos - que tanto exploraram os brasileiros ao longo de 500 anos - está de chapéu na mão. Em contrapartida os Estados Unidos - em cuja fronteira com o México também está sendo levantado uma muralha e os "minutemen", cangaceiros de plantão, não hesitam em atirar nos que tentam atravessar ilegalmente - têm poder de veto no Conselho de Segurança, barrando sistematicamente as sanções contra Israel em decorrência da violação das leis internacionais e dos direitos humanos.

    Há anos vem sendo denunciado o uso de bombas de fragmentação pelo exército israelense. Muitas dessas bombas não explodem quando caem no solo, criando um verdadeiro campo minado, por isso elas não podem ser lançadas contra alvos civis. Mas escolas e hospitais já foram bombardeados pelo exército israelense com esse tipo de armamento. Aliás, embora hospitais sejam áreas protegidas pelas leis internacionais contra quaisquer ataques bélicos, cinco hospitais libaneses claramente sinalizados foram atacados pelo exército israelense. Na ofensiva atual na Faixa de Gaza, os cérebros militares israelenses não só alvejaram um hospital como também uma escola gerenciada pela ONU e o próprio serviço de ajuda humanitária das Nações Unidas, obrigando à interrupção do socorro às vítimas palestinas. Por tudo isso, o alto comissariado da ONU para os direitos humanos solicitou que Israel seja investigado pela prática de crimes de guerra. Mas podemos confiar que a estrutura obsoleta das Nações Unidas aplique a devida punição?

    A guerra é a violência dos opressores contra os oprimidos; o terrorismo é a violência dos oprimidos contra seus opressores. Ambos são brutais, injustificáveis, ilegítimos, e não despertam nada a não ser sofrimento e sede de vingança.

    Quanto tempo ainda vai durar a falta de diálogo? Quantos inocentes civis morrerão na Terra até que exista, de fato, o Estado Palestino? Até que se respeite a soberania de todos os Estados? Até que acabe o ódio em nome da religião ou do poder? Até que terminem a miséria e a fome?

    A opinião pública brasileira tem, sim, a responsabilidade moral de se debruçar sobre a História para entender o que está acontecendo e de se manifestar contra todas as formas de violência.

Devemos agir para que o País seja conduzido à condição de membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, ajudando a equilibrar as forças políticas que decidem o destino do mundo. Um mundo que não pertence exclusivamente a cristãos, muçulmanos, budistas, judeus ou ateus, mas é compartilhado por bilhões de pessoas que querem, simplesmente, alcançar a felicidade.
   
Aracy P. S. Balbani é médica
Atualizado ( quinta, 15 janeiro 2009 )
 
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