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quinta, 09 setembro 2010
 
 
Rápidas - Orlando Pinheiro PDF Imprimir E-mail
Escrito por Orlando Pinheiro   
segunda, 02 fevereiro 2009
Um novo e importante colaborador inicia hoje sua coluna no nosso jornal: Orlando Pinheiro. Jornalista e radialista de Sorocaba, Orlando conhece muito bem a Região Sudoeste e sua presença entre os colunistas do ROL vem valorizar ainda mais nosso jornal (Helio Rubens - editor)

 A tal reforma ortográfica está parecendo o samba do crioulo doido. Foi-nos imposta goela abaixo pelos filólogos e passa valer a partir de agora num país onde mal escrevemos o próprio nome e lemos muito pouco. Fomos intimados a parar de “tremar”. Isto é, tirar os tremas das lingüiças. Se lingüiça, à partir de agora, tiver alguns pontinhos pretos não é trema. É bicho! Meu irmão está na dúvida para escrever fritar “linguiça”, ou se o carro “engüiça”. Nem sequer fizeram um plebiscito para discutirmos o assunto. A medida vai transformar em papel velho milhões de livros didáticos. 

...O jeito é manter na estante os livros velhos como enfeite de estante nova comprada em liquidação de natal. Eu é que não vou jogar fora os meus livros. Vou ter que comprar mesmo um novo dicionário. Os editores de livros didáticos estão felizes. Vai haver uma mudança radical nas bibliotecas escolares. Os professores alegam que manter livros contendo a antiga ortografia atrapalha os alunos. Não sei por onde! Os alunos não lêem mesmo. Só lêem as mensagens abreviadas do MSN. Os livros de gramática, antes condenados ao esquecimento, agora estão condenados a papel reciclado.

...Será um desperdício o gasto para substituir os livros nas bibliotecas publicas. A inclusão das letras K,W e Y já se fizeram presente na prática há muitos anos. Poucos se importaram com a invasão sutil dos Yahoo, dos White Horse e dos Kingston ao longo dos anos no nosso falar. Sem contar palavras de significados diferentes entre Brasil e Portugal, por conta do padre José de Anchieta que era espanhol, e escreveu a nossa primeira gramática, mesclando com o dialeto tupi-guarani. Isso fez a grande diferença na nossa língua oriunda do português castiço. No nosso idioma são-miguelense, nada vai mudar! Sempre foi atípico o nosso linguajar autóctone.

...Ninguém fala do custo dessa reforma ortográfica. Pensa-se apenas na língua globalizada. Existe certa cumplicidade perversa da grande imprensa com os lingüistas. Com toda a certeza o “Estadão”, a “Folha” e o “Globo” estarão lançando um novo “Manual de Redação”. Pode esperar! Na nossa realidade diária, atropelamos as palavras. O hífen vai continuar com o “h” e o “n”, agora mais importantes, para complicar alunos de cursinho. Nosso idioma rico é utilizado diversificadamente por quase duzentos milhões de pessoas. Cada região do Brasil tem sua fala peculiar. A reforma ortográfica não quer dizer que vai ficar mais fácil ou difícil falar ou escrever. Nosso português “brasileiro” é quase indominável. É inculto e belo! Acentos, fonemas, conjunções verbais se fundem. Poucos falam e escrevem corretamente.

...O acordo ortográfico tem finalidade política: unificar a escrita do Brasil com outros países lusófonos como: Angola, Cabo Verde, Moçambique, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe. Timor Leste e Formosa. O português era a única língua não unificada no mundo. Essa tentativa de mudança vem desde meados do século XX.

...Os documentos oficiais serão os primeiros a adotarem a nova regra. Participantes de concurso público vão sofrer pra diabo! O novo uso do hífen vai confundir feio. Mas isso tudo não vai mexer com a elegância da escrita e nem com estilo. Assim sendo, esta coluna continuará do mesmo jeito de sempre: sem estilo e sem elegância alguma. No melhor estilo são-miguelense autêntico, a nossa Andorra tupiniquim, usando a melodia mais cabocla da nossa fala.

...Universalizar a língua portuguesa é difícil. As coisas aqui e lá em Portugal não são as mesmas. Vejamos, aqui e lá: Banheiro é quarto de banho; açougue é talho; fila é bicha; ônibus é autocarro; trem é comboio; toca fita é leitor de cassete; terno é fato; embarcação é galera; calça é pantalona; cafezinho é bica; elegante é gira; time é equipa; bonito é bestial; preguiça é leseira; aeromoça é hospedeira de bordo; carteira de habilitação é carta de condução; descarga de banheiro é autoclismo; escanteio é ponta á pé de canto; fusca é carocha; pão francês é carcaça; pedestre é peão; placa de carro é matrícula; bisnaga é cacete e por aí vai...

...Nós falamos o “nheengatu”, mistura de tupi-guarani e português de Coimbra; algo um pouco mais evoluído que nos tempos de D. Diniz, do século XII que o padre Anchieta transliterou. Você pode até dizer para a sua gata na balada: “Estou com uma ponta por ti, ó rapariga. Vou pegar meu tele-móvel e falar que tu és arrebitada. Gostaria de bichanar em tuas orelhas, tirar-lhe a camisola e depois vestir-lhe a cueca”... Ela não vai entender nada. E os galicismos só nossos, como: “uai sô”-originado da companhia de estrada de ferro Way Co. , a qual construiu uma ferrovia em Minas Gerais. A palavra “gringo”, com origem no Brasil Colônia, quando os ingleses ao chegarem à costa brasileira, subiam no mastro do navio e gritavam: “Green go land”, ou seja, chegamos à terra verde. O famoso forró, não tem origem no “for hall”, segundo Câmara Cascudo. Vem da palavra forrobodó, ainda em voga no nordeste. Mas a cidade de Cubatão é o aportuguesamento de Cuba Town, forma com que os ingleses chamaram aquela pequena vila parecida com a ilha de Cuba, nas proximidades de Santos.

...Meus pais escreviam “ele” com dois éles, farmácia com “ph”, maquina e paróquia com “ch” Será que o nome do homem, era mesmo “Chagas”? Essa ortografia caiu em 1941, mas eles continuaram escrevendo do mesmo jeito. Falas e escritas são coisas diferentes. Minha geração acentuava tudo. “Tôda” tinha acento para diferenciar de “Toda”, uma ave que a gente nunca viu. Mudou em 1971. Só tenho medo de um dia incorporarem na gramática, palavras como: “vx é d+”; “baum”, “naum”; “ta add”... Ou a triste mistura dos pronomes “tu” com “você” das péssimas letras dos cantores sertanejo, o que não tem nada à ver com “zóio”, “ôio”, “piôio”, “véio”, “muié”, “cuié” incorporados ao fonema por raízes toponímicas profundas, gerando um outro idioma: o caipira. O índio não conhecia o encontro consonantal do “lh” e do “nh”. Isso criou o nosso linguajar sonoro e único no mundo. Coisas maravilhosas dessa língua de Camões.

 


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Atualizado ( segunda, 02 fevereiro 2009 )
 
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