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sexta, 03 setembro 2010
 
 
Aos leitores amigos - Carlos da Terra PDF Imprimir E-mail
Escrito por Carlos da Terra   
domingo, 28 junho 2009
ImageMe “acusam” de defender o casal Nardoni, e eu já disse que não apenas não os defendo como também não teria prerrogativas para isso.
O que eu tenho feito e acho que é correto, é questionar os resultados dos exames e de certas conclusões que os consideraram culpados mas que jamais me convenceram.
Do debate poderá surgir a luz e todo o elemento que se acresce ao debate é bem vindo e será considerado dentro de sua grandeza e parâmetros.
Uma obra fictícia, de um dos maiores, senão o maior escritor de todos os tempos, Edgar Alan Poe, talvez ilustre essa posição.
Edgar Alan Poe, extraordinário, um gênio da literatura e da filosofia, dispensa qualquer comentário e apresentação e “Os crimes da Rua Morgue” é um extraordinário presente que ele nos deixou.
Espero que leiam e reflitam sobre tudo e eu quero oferecer a apresentação desse conto de Poe, à Da. Rosana de Sousa Antunes, que, como tantos outros leitores, apresentaram suas opiniões mesmo discordando da minha, mas sempre com o espírito verdadeiro de buscar a verdade.
Quero também, respeitosamente oferecer ao Exmo. Promotor de justiça, o Dr.Cembranelli que gentilmente nos deu alguns esclarecimentos.
Enfim, desejo a todos o prazer imenso da leitura que Edgar Alan Poe nos oferece associada a uma análise extraordinária da natureza humana.
Bom divertimento e aqui vai a primeira parte da história. 
  Os Crimes da Rua MorgueEdgar Alan Poe     Que canção cantavam as sereias? Que nome tomara Aquilles quando se ocultou entre as mulheres? Perguntas são estas de embaraçosa resposta, é certo, mas que não estão fora de possíveis conjecturas”                 Sir Thomaz Browne   As faculdades do espírito, denominadas analíticas, são, em si mesmas, bem pouco suscetíveis de análise. Apreciamo-las somente em seus efeitos. O que delas sabemos, entre outras coisas, é que são sempre, para quem as possui em grau extraordinário, fonte do mais intenso prazer. Da mesma forma que o homem forte se rejubila com suas aptidões físicas, exulta o analista com essa atividade espiritual, cuja função é destrinçar enredos. Acha prazer até mesmo nas circunstâncias mais triviais, desde que ponham em jogo o seu talento. Adora os enigmas, as adivinhas, os hieróglifos, exibindo nas soluções de todos eles um poder de acuidade que, para o vulgo, toma o aspecto de coisa sobrenatural. Seus resultados, alcançados apenas pela própria alma e essência do método, têm, na verdade, ares de intuição.Essa faculdade de resolução é, talvez, bastante revigorada pelo estudo da matemática e especialmente pelo do mais alto ramo desta que, injustamente, e tão só causa de suas operações retrógradas, tem sido denominada “análise”. Como se fosse a análise por excelência. No entanto, o cálculo em sim mesmo não é análise. O jogador de xadrez, por exemplo, exercita um, sem fazer uso da outra. Daí decorre ser o jogo de xadrez grandemente mal-apreciado, nos seus efeitos sobre a natureza mental. Não pretendo escrever aqui um tratado, mas simplesmente prefaciar uma história bastante singular, com algumas observações um tanto à ligeira. Aproveitarei, pois a ocasião para afirmar que os mais altos poderes do intelecto reflexivo se põem mais decidida e mais utilmente à prova no modesto jogo de damas, que todas as complicadas frivolidades do xadrez. Neste último jogo, em que as peças têm movimentos diferentes e estranhos, com diversos e variados valores, o que é complexo – erro bastante comum – se confunde com o que é profundo. A atenção é nele posta poderosamente em jogo. Se ela se distrai por um instante, comete-se um erro que resulta em perda ou derrota. Como os movimentos possíveis não são somente múltiplos, como também intrincadas, as possibilidades de tais enganos se multiplicam. E em nove casos, dentre dez, é o jogador mais atento, e não o mais hábil, quem ganha. No jogo de damas, pelo contrário, em que os movimentos são únicos e pouco variam, as probabilidades de engano ficam diminuídas e a atenção, não estando de todo absorvida, todas as vantagens obtidas pelos jogadores só o são graças a uma perspicácia superior. Concretizando o que dissemos, suponhamos um jogo de damas em que as pedras fiquem reduzidas a quadro damas, e onde, sem dúvida, não se deve esperar engano algum. É evidente que aqui a vitória pode ser decidida – estando as duas partes em iguais condições – somente por algum movimento muito hábil, resultando dum forte esforço intelectual. Privado dos recursos habituais, o analista coloca-se no lugar de seu adversário, identifica-se com ele e não poucas vezes descobre, num simples relance de vista, um único meio – às vezes absurdamente simples – de induzi-lo a um erro, ou precipitá-lo num cálculo errado.O jogo de uíste tem sido famoso desde muito por sua influência sobre o que se chama “faculdade de calcular”, e conhecem-se homens de elevado valor intelectual que dele auferem um deleite aparentemente inacreditável, ao passo que menosprezam o jogo de xadrez como frívolo. É fora de dúvida que nenhum jogo análogo existe que tão grandemente exercite a faculdade de análise. O melhor jogador de xadrez da cristandade não passe de ser o melhor enxadrista; mas o jogador proficiente de uíste, tem capacidade de êxito em todas as especulações de bem maior importância, em que o espírito luta com o espírito. Quando digo jogador proficiente quero significar essa perfeição no jogo, que inclui o conhecimento de todas as fontes donde pode derivar um proveito legítimo. E estas não são apenas numerosas, mas complexas e jazem frequentemente em recesso do pensamento, totalmente inacessíveis a uma inteligência comum. Observar atentamente equivale a recordar com clareza; e, consequentemente, o jogador de xadrez, capaz de concentração intensa, será bom jogador de uíste,  porquanto as regras de Hoyle, baseadas apenas no simples mecanismo do jogo, são geralmente bastante inteligíveis. Por isso, ter uma boa memória e jogar de acordo com o “livro” são pontos comumente encarados como o sumo do bem jogar. Mas é nas questões acima dos limites da simples regra que se evidencia o talento do analista. Em silêncio, faz ele uma série enorme de observações e inferências. O mesmo talvez façam seus parceiros e a diferença de extensão  das informações obtidas não se encontra tanto na validade da dedução, como na qualidade da observação. O necessário é saber o que se tem de observar. Nosso jogador não se confina no seu jogo; nem rejeita deduções nascidas de coisas externas ao jogo, somente porque é o jogo o seu objetivo do momento. Examina a fisionomia do parceiro, comparando-a cuidadosamente com a de cada um dos seus adversários. Considera a maneira pela qual são arrumadas as cartas em cada mão; e muitas vezes conta, pelos olhares lançados pelos seus possuidores às suas cartas, os trunfos e figuras que têm. Nota cada movimento do rosto, à medida que o jogo se adianta, coligindo um cabedal de idéias, graças às diferenças fisionômicas indicativas de certeza, surpresa, triunfo ou pesar. Da maneira de recolher uma vasa, adivinha se a pessoa pode fazer outra da mesma espécie. Reconhece um bom jogo fingido, pela maneira com que é lançada a carta na mesa. Uma palavra casual ou inadvertida, uma carta que cai acidentalmente, ou que é virada e o consequente olhar de ansiedade ou despreocupação com que é apanhada, a contagem das vasas, pela sua ordem de arrumação, e o embaraço, a hesitação, a angústia ou a trepidação, tudo isso são sintomas, para sua percepção aparentemente intuitiva, do verdadeiro estado das coisas. Realizadas as duas ou três primeiras jogadas, está ele de posse completa das cartas que estão em cada mão, e portanto, joga suas cartas, com uma tão absoluta precisão, como se o resto dos jogadores houvesse mostrado as suas.O poder analítico não deve confundir-se com a simples engenhosidade porque, se bem que seja  o analista necessariamente engenhoso, muitas vezes acontece que o homem engenhoso é notavelmente incapaz de análise. A capacidade de construtividade e de combinação por meio da qual usaualmente se manifesta a engenhosidade e à qual os frenólogos ( a meu ver erroneamente) atribuem um órgão separado, supondo-a uma faculdade primordial, tem sido tão frequentemente encontrada naqueles cujo intelecto está quase nos limites da idiotia, que atraiu a  atenção geral dos tratadistas de moral social. Entre o engenho e a habilidade analítica existe uma diferença muito maior, na verdade, do que entre a fantasia e a imaginação, mas de caráter estritamente análogo. Verificar-se-á, com efeito, que os homens engenhosos são sempre fantasistas e os verdadeiramente imaginativos são, por sua vez, sempre analíticos.A história que segue aparecerá ao leitor como um comentário luminoso das proposições que acabo de anunciar.Residindo em Paris, durante a  primavera e parte do verão de 18..., travei conhecimento com um senhor C. Augusto Dupin, jovem cavalheiro de excelente e ilustre família. Em consequência duma série de acontecimentos desastrosos, ficara reduzido a tal pobreza que a energia do seu caráter sucumbira aos revezes, tendo ele deixado de frequentar a sociedade e de esforçar-se em recuperar sua fortuna. Graças à condescendência de seus credores, mandtinha-se ainda de posse dum resto de seu patrimônio, com cuja renda conseguia, com rigorosa economia, prover-se do necessário, sem cuidar de coisas supérfluas. Tinha na verdade um único luxo: os livros que, em Paris, podem ser adquiridos a baixo custo.Nosso primeiro encontro se deu numa escura livraria Montmartre, onde o acaso de estarmos à procura do mesmo livro, notável e raro, nos fez entrar em estreitas relações. Víamo-nos frequentemente. Interessou-me intensamente a pequena história de família que ele me contou, com toda aquela sinceridade característica do francês, quando se trata de si mesmo. Causou-me também admiração a vasta extensão de suas leituras e, acima de tudo, empolgou-me a alma o intenso fervor e a vívida frescura de sua imaginação. Procurando em Paris certas coisas que me interessavam, vi que a convivência com tal homem seria para mim tesouro inapreciável. E isso francamente lho disse. Resolvemos por fim morar juntos, durante minha permanência em Paris e como minha situação financeira era muito melhor que a dele, a mim coube a despesa de alugar e mobiliar, num estilo adequado a um tanto fantástica melancolia de nossos caracteres, uma velha e grotesca casinha, quase em ruínas, há muito desabitada, em virtude de superstições de que não indagamos, e situada em solitário recanto do bairro se Saint- Germain.Se a rotina da vida que ali levávamos viesse a ser conhecida do mundo, ter-nos-iam como doidos – ou, talvez, por simples malucos inofensivos... Nossa reclusão era completa. Não recebíamos visitas. Pra dizer a verdade, tínhamos mantido sigilo absoluto a respeito do lugar de nosso retiro, até mesmo para com nossos antigos camaradas. Havia muitos anos que Dupin cessara de travar novos conhecimentos, ou de ser conhecido em Paris. Vivíamos, pois, sozinhos os dois.Tinha meu amigo uma esquisitice  - que outro nome posso dar-lhe senão esse? – que era a de amar a noite por amor da noite. E dessa esquisitice, bem como de todas as outras dele, me deixei eu contagiar, abandonando-me ao sabor de suas extravagantes originalidades. A negra divindade não podia viver sempre conosco, mas nós lhe imitávamos a presença. Aos primeiros albores da manhã, fechávamos todos os pesados postigos de nossa velha casa, acendíamos um par de círios, fortemente perfumados, que emitiam uma luz fraca e pálida. Graças a ela, mergulhávamos nossas almas em sonhos, líamos, escrevíamos, ou conversávamos, até que o relógio nos advertisse da chegada da verdadeira Escuridão. Então, saíamos pelas ruas, de braço dado, continuando a conversa do dia, ou  vagando por toda a parte, até a hora avançada, à procura, entre as luzes desordenadas e as sombras da populosa cidade, daquelas inumeráveis excitações cerebrais, que a tranquila observação pode proporcionar.Em tais ocasiões, não podia deixar eu de notar e de admirar em Dupin (embora a rica idealidade de que era ele dotado a isso me conduzisse, como era de esperar) certa habilidade analítica peculiar. Parecia, também, sentir acre prazer no exercitá-la, senão mais exatamente em exibi-la, e não hesitava em confessar a satisfação que disso lhe provinha. Dizia-me, com vanglória e com uma risadinha escarninha, que a maioria dos homens tinham para ele janelas no coração, acompanhando geralmente tal afirmativa de provas diretas e bem surpreendentes de seu profundo conhecimento de minha própria pessoa. Seus modos, nesses momentos, eram frios e abstratos; seus olhos tinham uma expressão vaga, ao passo que sua voz, geralmente de belo timbre de tenor, elevava-se agudamente, num tom que seria insolente, não fosse a ponderação e inteira segurança da enunciação. Observando-lhes esses modos, muitas vezes fiquei a meditar sobre a velha filosofia da Alma Dupla, e divertia-me com a idéia de um duplo Dupin: o criador e o analista.Não se suponha, pelo que acabo justamente de dizer, que estou circunstanciando algum mistério, ou escrevendo algum romance. O que descrevi na pessoa desse francês foi simplesmente o efeito de uma inteligência excitada, ou talvez doentia, mas um exemplo dará melhor idéia da natureza de suas observações, na época em questão.Passeávamos, certa noite, por uma comprida e suja rua, nas vizinhanças do Palais Royal. Estando, aparentemente ambos nós ocupados com os próprios pensamentos, hvia já uns quinze minutos que nenhum dos dois dizia uma só sílaba. Subitamente, Dupin pronunciou as seguintes palavras:- A verdade é que ele é mesmo um sujeito muito pequeno e daria mais para o Teatro de Variedades.- Não pode haver dúvida alguma a respeito – respondi , inconscientemente, e sem reparar, a princípio (tão absorto estivera em minha meditação ) a maneira extraordinária pela qual as palavras de meu companheiro coincidiam com o objeto de minhas reflexões. Um instante depois dei-me conta do fato e meu espanto não teve limites.- Dupin – disse eu com gravidade – isto passa as raias de minha compreensão. Não hesito em dizer que estou maravilhado e mal posso dar crédito a meus sentidos. Como é possível que soubesse você que eu estava pensando em...? – Aqui me detive para certificar-me, sem sombra de dúvida, se ele realmente sabia em quem pensava eu.-...em Chantilly? – disse ele – Por que parou? Não estava você, justamente, a pensar que o tamanho diminuto dele não se adequava à representação de tragédias?Era esse precisamente o assunto de minhas reflexões. Chantilly era um antigo sapateiro-remendão da rua de S. Diniz que, fanático pelo teatro, se atrevera a desempenhar o papel de Xerxes, na tragédia de Crébillon, do mesmo nome, tendo por isso merecido críticas violentas.- Diga-me, pelo amor de Deus – exclamei – qual foi o processo – se é que há algum – que o capacitou a sondar o íntimo de minha alma.Eu estava na verdade, mais surpreso do que desejava parecer.- Foi o fruteiro – respondeu meu amigo – quem levou você à conclusão de que o remendador de solas não tinha bastante  altura para o papel de Xerses et id genus omne.- O fruteiro?! Você me assombra... Não conheço fruteiro de espécie alguma.- O homem que lhe deu um encontrão, quando entramos nesta rua há talvez uns quinze minutos.Lembrei-me então de que, de fato, um fruteiro, carregando na cabeça um grande cesto de maçãs, quase me derrubara acidentalmente, quando havíamos passado da rua C... para a avenida em que nos achávamos. Mas o que tivesse isso que ver com Chantilly é  o que eu não podia compreender.Não havia em Dupin uma partícula sequer de charlatanice.- Vou explicar – disse ele – e, para que você possa compreender tudo claramente, vamos primeiro retroceder, seguindo o curso de suas meditações, desde o momento em que lhe falei até o do encontrão, com o tal fruteiro. Os elos mais importantes de cadeia são estes: Chantilly, Órion, Dr. Nichols, Epicuro, a estereotomia, as pedras da rua, o fruteiro.Há bem poucas pessoas que não tenham, de algum momento de sua vida, procurado divertir-se, remontando os degraus pelos quais atingiram certas conclusões particulares de suas idéias. Esta ocupação é, não poucas vezes, cheia de interesse e o que a experimenta pela primeira vez fica admirado diante da aparente distância ilimitada e da incoerência que há entre o ponto de partida e a chegada. Qual não foi, pois, o meu espanto, quando ouvi o francês falar daquela maneira, e não pude deixar de reconhecer que ele havia falado a verdade. Continuou:- Estávamos conversando a respeito de cavalos, se bem me lembro, justamente antes de deixar a rua C... Foi o último assunto que discutimos. Ao cruzarmos na direção desta avenida, um fruteiro, com grande cesto sobre a cabeça, passando a toda pressa à nossa frente, lançou você de encontro a um monte de pedras, empilhadas no lugar onde estão consertando o calçamento. Você pisou em uma das pedras soltas, escorregou, torceu levemente o tornozelo, pareceu aborrecido ou contrariado, resmungou umas palavras, voltou-se para olhar o monte de pedras e depois continuou a caminhar em silêncio. Não estava particularmente atento ao que você fazia, mas é que a observação se tornou para mim, ultimamente, uma espécie de necessidade.Você manteve os olhos fixos no chão, olhando, com expressão mal humorada, os buracos e sulcos do pavimento, (de modo que vi que você continuava pensando ainda nas pedras), até que alcançamos a pequena travessa Lamartine, que foi calçada, a título de experiência, com tacos de madeira, solidamente reajustados e fixos. Ali, sua fisionomia se iluminou e, percebendo que seus lábios se moviam, não tive dúvida de que você murmurava a palavra “estereotomia”,termo demasiado pedante que se aplica a essa espécie de calçamento. Sabia, que você não poderia dizer consigo mesmo a palavra “esterotomia”, sem vir a pensar em átomos e portanto nas teorias de Epicuro. Como não faz muito tempo que discutimos este assunto, lembro-me de lhe haver mencionado quão singularmente, embora pouco notado, as vagas conjeturas daquele nobre grego tinham tido confirmação, com a recente cosmogonia nebular, e vi que você não se conteve que não erguesse os olhos para a grande nebulosa de Órion, coisa que eu esperava que você não deixaria de fazer. Você olhou, pois, para cima e tinha então a certeza de haver acompanhado estritamente o fio de suas idéias. Naquela crítica ferina que apareceu a respeito de Chantilly, ontem, no museu, o satirista, fazendo algumas maldosas alusões à mudança de nome do remendão ao calçar coturnos,  citou um verso latino, a respeito do qual temos tantas vezes conversado. Refiro-me ao versoPedidit angiquum litera prima sonum, Que, segundo expliquei a você, aludia a Órion, que antigamente se escrevia Urion, e, por causa de certa mordacidade, ligada a esta explicação, estava eu certo de que você  não poderia tê-la esquecido. Era, portanto, bem claro que você não deixaria de combinar as duas idéias de Órion e Chantilly. Que você as havia combinado vi pela espécie de sorriso que pairou nos lábios. Pensou na imolação do pobre remendão. Até então estivera você a caminhar meio curvado, mas naquele momento você se endireitou, ficando bem espigado, a toda altura. Certifiquei-me  então de que você estivera pensando na pequena estatura de Chantilly. Neste ponto  interrompi suas meditações para observar que, como, de fato, era ele um sujeito muito baixo, o tal Chantilly, daria melhor para representar no Teatro de Variedades.Pouco tempo depois disto, estávamos lendo uma edição vespertina da Gazeta dos Tribunais, quando os seguintes parágrafos detiveram nossa atenção“ Esta manhã cerca de três horas, os moradores do bairro de S. Roque foram despertados do sono por sucessivos gritos aterrorizadores, provindo, ao que parecia, do quarto andar duma casa da rua Morgue, da qual eram inquilinos uma tal Sra. L´Espanaye e sua filha, a Srta. Camila L´Espanaye. Depois de certa demora, ocasionada pela infrutífera tentativa de penetrar na casa pela maneira habitual, foi a porta arrombada com um pé-de-cabra e oito ou dez vizinhos entraram, em companhia de dois gendarmes. A este tempo, já haviam cessado os gritos, mas ao subir o grupo o primeiro lanço de escada, ouviram-se duas vozes ásperas, em colérica disputa, as quais pareciam provir da parte mais alta da casa. Alcançado o segundo patamar, também esses sons cessaram e tudo ficou em completo silêncio. O grupo espalhou-se, a correr quarto por quarto. Ao chegarem a um grande quarto, da parte de trás, no quarto andar ( cuja porta foi arrombada, por se achar fechada a chave por dentro), o espetáculo que se apresentou à vista dos presentes os encheu não só de assombro como de horror.“ O aposento apresentava a mais selvagem desordem, com a mobília partida e jogada em todas as direções. Havia apenas uma armação de cama, cujas roupas e colchão tinham sido arrancados e lançados no meio do quarto. Sobre uma cadeira via-se uma navalha manchada de sangue. Na chaminé encontravam-se duas ou três longas e espessas mechas  de cabelo humano grisalho, também sujas de sangue e parecendo terem sido arrancadas pela raiz. Espalhados no chão, quatro mil francos em ouro. As gavetas duma escrivaninha, a um canto, estavam abertas, e tinham sido, ao que parecia, saqueadas, embora ainda contivessem muitos objetos. Um pequeno cofre de ferro foi descoberto, debaixo do colchão e não da armação da cama.  Estava aberto e com a chave ainda na fechadura. Continha apenas umas poucas cartas velhas e outros papéis de pequena importância.“não se viam sinais da Sra. L´Espanaye, mas tendo sido notada uma quantidade ins´lita de fuligem, na estufa, deu-se uma busca na chaminé, e (coisa horrível de contar-se) dela se retirou o cadáver da filha, de cabeça para baixo. Fôra ali introduzido, à força, pela estreita abertura, até uma altura considerável. O corpo ainda estava quente. Ao examiná-lo, notaram-se numerosas escoriações, causadas, sem dúvida, pela violência com que fora metido na chaminé e depois dela retirado. O rosto apresentava muitas arranhaduras profundas e, na garganta, viam-se negras equimoses e fundas marcas de unhas, como se a vítima tivesse sido mortalmente estrangulada.“Depois de cuidadosa investigação de todos os aposentos da casa, sem nenhuma outra descoberta, o gupo encaminhou-se para um pequeno pátio calçado, que havia atrás da casa, e lá encontrou o cadáver da velha, com a garganta tão cortada que, ao tentar-se levantar o corpo, a cabeça caiu.  Tanto o corpo, como a cabeça, estavam terrivelmente mutilados, sendo que aquele mal conservava qualquer aparência humana.“Segundo parece, não se descobriu até agora nenhum indício revelador de tão horrível mistério.”O jornal do dia seguinte trazia estes novos pormenores:A tragédia da Rua Morgue “Muitas são as pessoas que têm sido interrogadas a respeito deste tão extraordinário e terrível caso, mas nada do que até agora se sabe pode lançar luz sobre ele. Damos abaixo todos os depoimentos prestados à polícia.
Atualizado ( domingo, 28 junho 2009 )
 
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