www.itapedigital.com.br
Publicidade - CLIQUE AQUI
sexta, 10 setembro 2010
 
 
Comissão Estadual de Erradicação do Escalpelamento (Ceee) - Miranda Neto PDF Imprimir E-mail
Escrito por Miranda Neto   
quarta, 22 julho 2009
ImageVocê já ouviu falar ?


    O tamanho do nosso país provoca situações únicas e desenvolve culturas locais que desconhecemos.
    Fiquei impressionado com o relato do jornalista Roberto Cattani, companheiro da J.Aliança Internacional de Jornalistas, atual presidente da ACE - Associação dos Correspondentes Estrangeiros - e diretor da agência de notícias ANSA, que após várias tentativas teve seu artigo publicado na revista Carta Capital no dia 26 de junho.
    Aspectos religiosos  e a ignorância local estão envolvidos  impedindo ações mais decisivas, embora muito simples.
    Acompanhem a reportagem na íntegra.
   
Rosicleide, 28 anos, sabia do perigo. Já tinha ouvido falar das mulheres que perdem o cabelo porque ele se enrosca no eixo do barquinho. Mas ela fora com o marido e os seis filhos para a festa junina na aldeia vizinha, e agora eram três da manhã e, com o caçula no colo, ela pegou no sono, uma, duas vezes, com a cabeça caindo para frente. Na terceira, dormiu mesmo. Acordou com uma dor lancinante, como se tivessem arrancado tudo da cabeça dela. E tinham mesmo. O cabelo longo solto se aproximara do eixo da hélice magnetizado pelas rotações e pela umidade, e numa fração de instante, lá se foram o cabelo, o couro cabeludo, a pele da fronte e de parte da nuca. Demorou seis horas para chegar ao pronto-socorro mais próximo, com a cabeça envolta numa toalha úmida, e aquela dor insuportável.

Maria de Lurdes, 44 anos, não sabia do perigo. Quando o vento levantou, o barquinho carregado até a borda de bananas, mandioca e açaí da roça para levar para a feira em Belém encheu de água do rio. Maria se agachou para baldear e não lembra de mais nada. Acordou do desmaio com aquela mesma dor lancinante e quase as mesma lesões que Rosicleide. Demorou onze horas para chegar ao hospital, com a infecção já se alastrando.

Larissa, 9 anos, estava sentada ao lado da mãe, admirando a linda lancha branca lustrosa que depois passou bem perto do barquinho deles a toda velocidade, levantando ondas. Ela e a mãe perderam o equilíbrio, e ela rolou para o fundo do barco. Ela perdeu além do couro cabeludo, parte da pele do lado esquerdo da cabeça e do rosto, incluindo a orelha. Chorou durante nove dias seguidos, desde o barco até o médico, e depois no hospital, gritando de terror no sono.

Rosicleide, Maria de Lurdes, Larissa, Adelinda, Sirlene e muitas outras que passam por curas intermináveis na Santa Casa de Misericórdia de Belém são vítimas de uma estranha ‘tradição’ que surgiu no Pará e foi se perpetuando até hoje. Os barquinhos são como os fusquinhas daquela região, interior do Pará, Marajó e Amapá, que vive entre terra e água, onde a maioria das casas são palafitas. Desde os anos ’60, eles são construídos artesanalmente com um motor central, e não de popa, como no Amazonas, por exemplo. Por causa da posição central no barco, o eixo que move a hélice corre até a popa − completamente descoberto, sem revestimento nenhum, proteção nenhuma. E se torna uma ameaça constante para os ribeirinhos que usam os barquinhos, especialmente as caboclas de cabelo sempre comprido e sempre solto, ainda mais com a difusão das seitas evangélicas na região. São mais de 25 mil barquinhos que circulam dessa forma, hoje ilegal mas ainda usada. Não são só mulheres as vítimas: já houve caso de homens com mutilações (até genitais) porque a bermuda deles se prendeu no eixo e foi enrolada violenta e instantaneamente. Mas a grande maioria é mesmo de mulheres e meninas.

A Comissão Estadual de Erradicação do Escalpelamento (Ceee), criada há dois anos, já cadastrou 214 vítimas de escalpelamento − 80% de sexo feminino e 65% crianças ou adolescentes − e calcula que elas são no total mais de 250, de 1987 a 2009. Em 2007 foi registrado o mais alto número de acidentes (24), em 2008 a incidência baixou para 13, mas este ano já foram registrados oito casos, cinco deles crianças.

Para as vítimas, depois do horror do escalpelamento em si, começa um calvário infinito, que não termina nem quando recebem alta do hospital, depois de um tratamento que dura em média entre oito meses e um ano, mas pode se estender por anos. Primeiro passam por inúmeros transplantes de pele (retirada geralmente da coxa) e cirurgias plásticas, para diminuir os estragos que são também estéticos; para os casos mais graves, é preciso até implantar uma camada de silicone para envolver o crânio, deixado sem a proteção do couro cabeludo. O risco de infecção e inflamação é sempre muito grande, e depois há o perigo de câncer da pele. Os danos neurológicos, como a possível perda de visão e audição, podem ser irreversíveis, e todas sofrem de dor de cabeça constante.

“Aos problemas médicos se somam as seqüelas psicológicas − explica Maria do Socorro Ruivo, vice-coordenadora do Programa de Atendimento Integral às Vitimas do Escalpelamento (Paives) da Santa Casa − Há quem fique com terror durante anos, como no caso de uma mulher muito jovem, que foi abandonada pelo marido por causa das terríveis cicatrizes, e que toda noite acordava aos gritos o filho mais velho. Elas esbarram também nos preconceitos das comunidades mais ignorantes, especialmente as crianças e as adolescentes que são chamadas de ‘monstros’ ou ‘ETs’, a ponto de algumas chegarem a se auto-enclausurar em casa, limitando ao mínimo o contato com o mundo em volta”.

As escalpeladas recusam obviamente as perucas (insuportáveis e malsãs com o calor e a umidade do Pará) e costumam usar lenços em volta da cabeça, tanto que elas são chamadas de “mulheres de turbante” pelos ribeirinhos. O trauma, revela Maria do Socorro, parece relativamente menos difícil de absorver para as adultas casadas e com filhos e para as crianças, mas é dramático para as adolescentes, que se afastam da vida escolar onde têm de enfrentar hostilidade e gozações; dificilmente elas conseguem se recuperar, segundo as estatísticas da Ceee.

O governo petista da governadora Ana Júlia Carepa criou a Comissão de Erradicação, soltou verbas para a indenização das vítimas, tornou ilegal o eixo descoberto e lançou uma ampla campanha de conscientização dos ribeirinhos, em colaboração com as associações de pescadores, várias igrejas evangélicas e a Pastoral da Criança. Uma ong chegou a elaborar em colaboração com a Marinha um kit a ser distribuído gratuitamente para criar um ‘capô’ para o eixo dos barquinhos, mas poucos o adotaram, quando tão somente três pedaços de madeira e uns pregos seriam suficientes para criar um mínimo de prevenção. O afastamento, o fatalismo, a ignorância em todos os sentidos e a miséria ainda dificultam a erradicação de um fenômeno absurdamente brutal e absurdamente simples de se evitar.

 

    É isso ai.

Miranda Neto é correspondente em São Paulo do jornal eletronico ROL - Região On Line - e membro efetivo da J.Aliança  Internacional de Jornalistas.

 
< Anterior   Próxima >
 
Topo da página! Topo da página!